domingo, 9 de setembro de 2007

AMANHECER EM SAQUAREMA


Amanhece em Saquarema, estou envolta pelo inusitado do surgir e nesta névoa de silêncio que se desfaz em mim renasce uma angústia antiga: amanhecem o mar e o céu, únicos amantes do instante. Amanhece em Saquarema, em minhas mãos eu premedito o sol, artífice do tempo que lapida as horas fragmentando a manhã que cega e embriaga...

Sinto reconstituir-se em mim um passado antigo.

Amanhece em Saquarema, no céu, brancura de pássaros como pálpebras soltas na chuva, observando, ensinando, libertando.

E na plumagem dos sonhos, a tecedura da manhã chuvosa.

Vestígios da noite flutuam na gaza das ondas e as palavras que me disseram sobreviveram ao mar.

Ó, esta linguagem antiga que me persegue!

Quantas promessas desfeitas no alicerce das línguas?

Quantos homens traídos, quantas idéias?

Amanhece em Saquarema, o infinito conversa de terra e mar e eu descubro que já não sou que sou apenas a hipótese de mim.

E minha retórica são as lembranças, é a memória vaga que vaga na abstração da manhã.

Amanhece em Saquarema, estou sentada na calçada da pracinha e em sua laje deposito a minha memória fraturada, o meu desgosto, a minha lástima!

O sol me beija estilhaçando os sonhos e eu componho este poema sem vontade.

Escrevo-o com a vida!

Nenhum comentário: