sábado, 13 de junho de 2009

UMA BELA DEFINIÇÃO DE SAUDADE...



DEPOIMENTO DE UM MÉDICO ONCOLOGISTA DO RECIFE.


No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças,
me entusiasmei com a oncologia infantil.
Tinha, e tenho ainda hoje, um
carinho muito grande por crianças.
Elas nos enternecem e nos surpreendem com suas maneiras simples e diretas de ver o mundo sem meias verdades.

Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses".
Só que não o somos!
Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim,se bem dosado.
É este sentimento nos impulsiona que nos ajuda a vencer desafios a se
rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além.
Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o
que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície,
experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e
entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos
limites!

Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus
primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar a
enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria.
Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes,
particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta
terrível doença que é o câncer.

Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o
sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.

Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por
2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames,
manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de
quimioterapias e radioterapia.

Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não
via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto
é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à
enfermeira e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu
ficar boa.

Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho
no quarto. Perguntei pela mãe.
E comecei a ouvir uma resposta que ainda
hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

Meu anjo respondeu:
- Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos
corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de
mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio.
Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus
heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que a morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do
nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama
não é?
(Lembrei que minhas filhas, na época com 6 e 2 anos, costumavam
dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
- É isso mesmo, e então?
- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos,nosso
pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama,não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu
Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei "espantado". Boquiaberto, não sabia o que dizer.
Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muita saudade minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço,
perguntei ao meu anjo: - E o que saudade significa para você,minha
querida?
- Não sabe não, tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição
melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que
fica!

Um anjo passou por mim...

Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do
que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é
relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto
relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.

Meu anjinho já se foi, há longos anos.
Mas me deixou uma grande lição,vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença e a quem nunca mais esqueci.
Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.

Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a
quem chamo "meu anjo, que brilha e resplandece no céu.
Imagino ser ela,fulgurante em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinaste,
pela ajuda que me deste.

Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão
Médico oncologista clinico
RC Recife Boa Vista D4500
Cremepe 5758"

4 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Amigos são poemas…
Os verdadeiros amigos são a poesia da vida.
Eles enchem nossos dias de cores, rimas e risos,
nos seguram a mão quando caminhar parece difícil.
Mostram que mesmo em dias nublados o sol está no mesmo lugar,
e nos ensinam que a chuva pode ser uma canção de ninar
nas noites solitárias e vazias.

Um abraço em mais este final de semana, que tudo lhe
Seja bom...

Anselmo disse...

Bela mensagem de vida! parabéns pelo excelente blog. abraços amiga1

Cintia disse...

Tem um presentinho pra vc lá no meu blog e espero que goste...
Um beijo grande...

Sonia Schmorantz disse...

Emocionante....mas ser mãe nesse momento de um anjo com hora marcada para voltar ao céu, é infinitamente triste!
Um abraço e bom final de semana