segunda-feira, 25 de junho de 2012

PROCURA-SE UM AMIGO.

Procura-se um amigo.
Não precisa ser homem,basta
ser humano,
basta ter sentimento,basta ter
coração.
Precisa saber falar e
calar,sobretudo saber ouvir
o que as palavras não dizem.
Tem que gostar de poesia,de
madrugada, de pássaros,
das estrelas, do sol, da lua,do
canto dos ventos
e das canções da brisa.
Deve ter amor,um grande
amor por alguém,
ou então sentir falta de não
ter esse amor.
Deve amar o próximo e
respeitar a dor
que os passantes levam
consigo.
Deve guardar segredo sem se
sacrificar.
Não é preciso que seja de
primeira mão,
nem é imprescindível que seja
de segunda mão.
Pode já ter sido enganado,
pois todos os amigos são
enganados.
Não é preciso que seja puro,
nem que seja de todo impuro,
mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de
perdê-lo e,no caso de assim
não ser,deve sentir o grande
vácuo que isso deixa.
Tem de ter ressonâncias
humanas,
seu principal objetivo deve ser
o de amigo.
Deve sentir pena das pessoas
tristes
e compreender o imenso vazio
dos solitários.
Deve gostar de crianças
e lastimar as que não puderam
nascer.
Procura-se um amigo para
gostar dos mesmos gostos,
que se comova quando
chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas
simples,
de orvalhos, de grandes
chuvas
e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não
enlouquecer,
para contar o que vi de belo e
triste durante o dia,
dos anseios e das
realizações,dos sonhos e da
realidade.
Deve gostar de ruas desertas,
de poças d´água e de
caminhos molhados,
de beira de estrada, de mato
depois da chuva,
de se deitar no capim.
Preciso de um amigo que diga
que vale a pena viver,
não porque a vida é bela,mas
porque já tenho um amigo.
Preciso de um amigo para
parar de chorar.
Para não viver debruçado no
passado
em busca de memórias
perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo
e chorando,
mas que me chame de amigo,
para que eu tenha a
consciência de que ainda vivo.
Vinícius de Moraes

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