terça-feira, 26 de junho de 2012

SOLIDÃO-Carlos Leíte Ribeiro

Bem cedo habituei-
me a estar só.
Já várias vezes
tentei descrever a
palavra "solidão"
por gestos.
Fingi que chorava,
assumi um ar
desamparado e até
murmurei o que
pensei que fossem
sons solitários. Mas
a definição
"solitário" é muito
difícil de descrever
- é mais fácil senti-
la.
Saber distinguir
entre sozinho e o
solitário, pode ser
importante, mas eu
encontro alívio e
paz na solidão.
Habituei-me à
solidão.
Um escritor gosta
de estar só,
escrever como se
tivesse a falar
consigo próprio,
sem precisar de
gente para arrumar
as cenas.
A solidão na
juventude é triste
porque até então
não se aprendeu a
arte de viver
confortavelmente
com ela. Em geral,
só na maturidade é
que a solidão se
torna deliciosa.
Hoje, quando me
sinto perplexo,
procuro na solidão,
na eloquência do
silêncio, e espero
que as respostas
cheguem. E elas
chegam ...
O escritor - um
eremita na caverna
da sua mente -
muitas vezes é uma
pessoa solitária.
Mas a solidão
também pode ser
um doce
sofrimento, ao que
dizem, torna-nos
mais sinceros.
Ao passarmos por
uma rua
movimentada, em
geral passamos
pelas pessoas sem
olhar para elas.
Porém, numa rua
tranquila, quando
nos aproximamos
de uma pessoa
sozinha, a
cumprimentamos, e
até falamos com
ela. É um acto
estranho,
provocado pelo
magnetismo
inexplicável de duas
pessoas que se
sentem sós.
A ideia que eu
tenho de um lugar
perfeito para
morar, é uma casa
no meio dum pinhal,
à beira de um lago,
com muitos animais
em redor, e da qual
eu não pudesse ver
outra qualquer.
Nem mesmo uma
chaminé distante,
para não destuir a
minha sensação de
tranquilidade. De
noite, as janelas
iluminadas, são
olhos curiosos que
me espreitam.
Aqueles que vivem
compreensivamente
com a solidão,
acham-na uma
companheira
tolerável, simpática
e até empolgante.
Para quem gosta, a
solidão tem os seus
encantos.
Hoje, na minha
idade, se eu fosse
representar a
solidão, havia de
sorrir e fazer um ar
satisfeito.

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