quinta-feira, 26 de julho de 2012

O HOMEM ROMÂNTICO


O homem romântico,
dizem, é como o tangará:
ser raro em extinção, cujo
nome poucos
reconhecem. O tangará é
uma ave que raramente
pousa no chão, passando a
maior parte do tempo em
árvores. O homem
romântico também é um
nefelibata, habitante das
nuvens do pensamento,
procurando sempre
formas diferentes de
cortejar sua amada. Sim,
robertocarlianamente ele
ainda chama de querida a
sua amada.
O homem romântico sabe
que não precisa inventar
muito para demonstrar o
seu amor verdadeiro. Por
isso, o homem romântico
recorre à dúzia de rosas,
caixas de chocolate e
cartões com mensagens
lindas nos dias especiais.
Ele nunca esquece um dia
especial. Para o homem
romântico, a propósito,
qualquer dia pode virar
um dia especial. Ele sabe
que isso só depende dele.
Ele, como ninguém, vive o
tal carpe diem.
Um homem romântico se
importa com os detalhes.
Nos detalhes que moram
as diferenças. Um homem
romântico abre a porta do
carro, da sala, do coração.
O homem romântico cede
seu lugar. O homem
romântico escreve
bilhetinhos desejando um
bom-dia ou boa sorte na
entrevista para aquele
emprego novo e o coloca
escondido na bolsa da
amada. O homem
romântico é um Anchieta
de espelho de banheiro,
escrevendo mensagens
poéticas que acordam o
dia da mulher com
palavras especiais. O
homem romântico, se
preciso, tira sua camisa
para abrigar a mulher na
chuva torrencial sem
medo de que ela pense
que ele quer compensar
alguma desvantagem com
essa atitude.
O homem romântico sabe
da praticidade de uma
geladeira, mas prefere
como presente um jantar
a dois naquele mesmo
restaurante onde a
história registrou
momentos da concepção
do romance. Naquela
mesma mesa. Para repetir
os mesmos gestos. De
preferência sob a mesma
trilha sonora. Um homem
romântico constrói a dedo
a trilha sonora. Escolhe as
músicas, como escolhe as
formas de agradar.
O homem romântico vive
em qualquer lugar como
se fosse sua casa. Ser feliz
e fazer os outros felizes é
sua guerra particular. O
homem romântico é um
sonhador, não um
deslumbrado. Age por
paixão, mas a paixão do
tipo que liberta e não a do
tipo que escraviza. Cortês
sem excesso, para o
homem romântico
ninguém pode tratar uma
mulher melhor do que ele.
Fraterno sem invasão,
para o homem romântico
a sua é a mais confortante
das companhias possíveis.
Pelo menos, não mede
esforços para que seja. O
homem romântico
provoca sorrisos quando
chega e vazios quando vai.
Deixa no ar o desejo de
sua presença. Faz com
que anseiem pelo seu
perfume.
O homem romântico gosta
de mulher. Não só no
sentido sexual do termo.
Também, claro. Mas o
homem romântico sabe
que gostar de mulher é
prestar atenção nela, é ter
a sensibilidade para
cativá-la a cada momento
e compreender sua
peculiaridade. É ter
paciência para conviver
com sua necessidade de
falar ou para sobreviver
quando isso estiver além
de sua limitação
masculina. É respeitar seu
tempo. É ouvi-la contar
como foi seu dia,
sorvendo cada palavra e
lastimando genuinamente
não ter estado presente.
O que faz um homem
romântico é a vontade de
entender a mulher.
Porque a mulher é um
bicho complicado e difícil
de entender. Mas essa
curiosidade é constitutiva
do homem romântico e
ele tem essa curiosidade.
Mas o homem romântico,
registre-se, pode virar um
ogro se sentir que outro
homem corteja a sua
mulher.
O homem romântico,
apesar de pleno, é um
incompleto. Sabe ele que
se completa em sua
mulher. Quando a beija,
quando a abraça, quando
suam juntos, quando a
penetra. Todavia, o
homem romântico sabe
que a penetração do
corpo nada vale sem a
prévia penetração da
alma. E é fato: o fazer
amor do homem
romântico começa bem
antes do encontro dos
corpos, nos sorrisos,
palavras, silêncios que
antecederam, cheios de
sentidos compartilhados.
O homem romântico
deriva seu prazer do
prazer que faz a mulher
sentir. A medida de seu
prazer é a realização do
dela. O homem romântico
vive a saga de encher sua
mulher de beijos de todos
os tipos: carinhosos,
fogosos, apaixonados,
molhados, permitidos,
roubados, fortes e
delicados. Um festival
deles. Em todos os
lugares. Várias vezes. Por
breves e longos tempos.
Na aparente e inocente
leitura de fragilidade que
acompanha o homem
romântico se esconde um
amante único,
inesquecível. Como
ninguém ama sozinho, o
homem romântico sabe
que sem o feminino o
masculino não existe. Ele
sabe-se um Yang frágil,
completamente
dependente do Yin fontal.
O homem romântico adora
surpreender sua mulher.
Inventar um programa
especial sem hora
marcada. Enviar uma pizza
em que esteja escrito “I
Love You” com catupiri.
Ligar às seis da manhã
para desejar bom-dia,
mandar uma mensagem só
para dizer que sente sua
falta. Fazer aquele prato
que ela gosta tanto. Ser
chef de sua degustação. O
homem romântico
consegue num toque de
pés sob a mesa dizer o
que quer e ser
plenamente entendido.
O homem romântico olha
sua mulher dormindo
como se fosse a mais bela
escultura de Michelangelo.
Para ele é. Seu olhar
pousa em seu corpo em
repouso com a maciez de
seus pensamentos. Analisa
a boca, acompanha a
respiração. Admira os
cabelos emaranhados na
beleza selvagem do
momento que segue a
ternura. O homem
romântico acorda sua
mulher com beijos em
seus olhos, pescoço e uma
mordidinha muito de leve
na ponta do seu nariz. O
homem romântico não sai
sem um carinho de
despedida.
O homem romântico é um
romântico gratuito. Faz
tudo isso sem cobrar
nada, a não ser a eterna
presença do olhar terno
que recebe ao ser
romântico. Ele é movido à
ternura. Ele é movido a
carinho. Ele é movido a
amor. O homem
romântico é um total flex
afetivo.
Um homem romântico,
poucos sabem, está em
cada homem. Nuns,
adormecido e
amordaçado, esperando o
seu resgate por um amor
verdadeiro, daqueles que
nos deixam bobos e leves.
Noutros, já liberto e
tresloucado, fazendo a
hora de seu romantismo,
fazendo de sua mulher a
mulher que mais deseja
um homem. Aquele
homem que a encanta,
que a seduz, que lhe dá
prazer, que a enreda em
seu olhar, que a prende
no seu infalível visgo, que
a entrelaça na sua sombra
e que a atrai feito imã,
obliterando sua razão
porque chaveia nela a
emoção mais pura, que
vem sabe-se lá de onde e
que ela sequer sabia que
tinha dentro de si. O
homem romântico é um
irresistível que não resiste
a uma paixão verdadeira,
paixão que, num círculo
virtuoso, não resiste a ele
igualmente. Com o
homem romântico,
simplesmente acontece.
Que me perdoem os
trogloditas, mas ser
romântico é fundamental.
Homem que é homem
chora de e por amor.
Porque é verdadeiro,
porque é macho. Porque é
romântico. Quando lhe
dão asas, o homem
romântico voa alto. Que
nem o tangará. Que nem
o tangará.
S.
.
Sérgio Augusto Freire de
Souza

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