quinta-feira, 19 de julho de 2012

O MEDO DE AMAR.


Medo de amar? Parece
absurdo, com tantos outros
medos que temos que
enfrentar: medo da violência,
medo da inadimplência, e a
não menos temida solidão, que
é o que nos faz buscar
relacionamentos. Mas absurdo
ou não, o medo de amar se
instala entre as nossas
vértebras e a gente sabe por
quê.
O amor, tão nobre, tão denso,
tão intenso, acaba. Rasga a
gente por dentro, faz um
corte profundo que vai do
peito até a virilha, o amor se
encerra bruscamente porque
de repente uma terceira
pessoa surgiu ou simplesmente
porque não há mais interesse
ou atração, sei lá, vá saber o
que interrompe um
sentimento, é mistério
indecifrável. Mas o amor
termina, mal-agradecido,
termina, e termina só de um
lado, nunca se encerra em dois
corações ao mesmo tempo,
desacelera um antes do outro,
e vai um pouco de dor pra
cada canto. Dói em quem
tomou a iniciativa de romper,
porque romper não é fácil,
quebrar rotinas é sempre
traumático. Além do amor
existe a amizade que
permanece e a presença com
que se acostuma, romper um
amor não é bobagem, é fato
de grande responsabilidade, é
uma ferida que se abre no
corpo do outro, no afeto do
outro, e em si próprio, ainda
que com menos gravidade.
E ter o amor rejeitado, nem se
fala, é fratura exposta,
definhamos em público,
encolhemos a alma, quase
desejamos uma violência
qualquer vinda da rua para
esquecermos dessa violência
vinda do tempo gasto e vivido,
esse assalto em que nos
roubaram tudo, o amor e o
que vem com ele, confiança e
estabilidade. Sem o amor,
nada resta, a crença se desfaz,
o romantismo perde o sentido,
músicas idiotas nos fazem
chorar dentro do carro.
Passa a dor do amor, vem a
trégua, o coração limpo de
novo, os olhos novamente
secos, a boca vazia. Nada de
bom está acontecendo, mas
também nada de ruim. Um
novo amor? Nem pensar.
Medo, respondemos.
Que corajosos somos nós, que
apesar de um medo tão
justificado, amamos outra vez
e todas as vezes que o amor
nos chama, fingindo um pouco
de resistência mas sabendo
que para sempre é impossível
recusá-lo.
Martha Medeiros

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