domingo, 24 de junho de 2012

CAMPOS DE FLORES-Carlos Drummond de Andrade

Deus me deu um amor no
tempo de madureza,
quando os frutos ou não são
colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-
deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois
que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto
aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que
amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o
mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e
não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que
não me sabia
e cansado de mim julgava que
era o mundo
um vácuo atormentado, um
sistema de erros.
Amanhecem de novo as
antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais
me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás
de tua sombra
imensa e contraída como letra
no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque
o mereci.
De tantos que já tive ou
tiveram em mim,
o sumo se espremeu para
fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se
armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa
indecisa
a tirar sua cor dessas chamas
extintas
era o tempo mais justo. Era
tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores
nascem de um
secreto investimento em
formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me
faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de
muitos
amantes desgovernados, no
mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e
transidos em torno,
o sagrado terror converto em
jubilação.
Seu grão de angústia amor já
me oferece
na mão esquerda. Enquanto a
outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e
a arquitetura
e o mistério que além faz os
seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um
amor crepuscular,
há que amar diferente. De
uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez
a ironia
tenha dilacerado a melhor
doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto
meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e
me confunde.

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